A super avó

No final de novembro e início de dezembro a minha mãe esteve doente. O que começou por ser uma simples gripe, acabou por se agravar e deixou-nos a todos muito assustados. Estava sem forças, sem conseguir pôr-se de pé, com uma fraqueza e estonteamento constantes. Mas acabou por recuperar, não sem antes ter tido de fazer uma visita de 24 horas aos serviços de urgência do nosso hospital. Mas isso é tema para uma outra crónica.

Durante aquele período, a minha irmã e eu passámos a ter de fazer aquilo que ela costuma fazer todos os dias. Eu só tenho uma filha, mas a minha irmã teve de multiplicar o esforço por três. E foi uma roda-viva de ir buscar à escola, levar à natação, trazer para casa dos avós, levar ao vólei, ir buscar à escola à hora do almoço, levar a casa dos avós para almoçar, trazer de volta para a escola, sair a correr a tempo da aula de braguinha, ir buscar à braguinha e trazer para casa, levar ao futebol, sem esquecer a aula de piano e a academia de inglês. Eu só fiz um terço do que a minha irmã teve de fazer e confesso que fiquei exausta. Esta correria, cheia de horários para cumprir, com mil e um pormenores para lembrar (À quarta sai às 16h00 ou às 17h30? Segunda é dia da natação às 17h45 ou às 19h15?), fez-me aperceber como aquilo que a minha mãe faz todos os dias pelos netos é absolutamente desgastante e cansativo. Mas faz sempre com tanto gosto e tanta alegria, que nunca nos tínhamos apercebido o quão duro era.

Mais, durante o seu período de doença, disse por diversas vezes que só queria voltar a sentir-se bem para poder tratar novamente dos netos, pois sentia a falta de todo aquele movimento que a mantinha ocupada durante as tardes. Aquela azáfama é essencial ao seu equilíbrio psíquico, e impede-a de ficar em casa no silêncio, enquanto o meu pai ainda está a trabalhar.

Um dia, ao dar boleia à minha sobrinha mais velha para o centro, fomos a falar sobre perdas, a propósito de um amigo que havia perdido a mãe. Disse-me que não se imaginava sem a sua mãe, que morreria se algo lhe acontecesse, mas que também não se imaginava sem a avó, que não sairia de casa durante meses de tão triste que ficaria. O que seria viver sem as idas no verão com a avó ao Clube Naval, sem a avó lhe perguntar no carro “Já te benzeste?”, sem a sua presença constante, em todos os momentos da sua vida?

Por diversas vezes me apercebi que o relato dos acontecimentos diários que a minha filha me faz também é partilhado com a avó. A avó é uma confidente especial, uma conselheira, que sabe quem são as suas melhores amigas, que sabe das suas brigas, que sabe das suas tristezas, que sabe das suas paixonetas, que sabe dos seus medos, que sabe dos seus pensamentos mais íntimos.

No último dia do ano perguntei à minha filha, em jeito de balanço, o que tinha sido para ela o melhor do ano e o que tinha sido o pior. Como melhor, destacou sem hesitar as férias de verão. Do primeiro ao último dia. Como pior, destacou os incêndios e a doença da avó. E nos incêndios, ainda assim, especificou que o que tinha gostado menos tinha sido de ver a aflição da avó.

Neste novo ano não queremos doenças, nem incêndios, queremos que o ano seja um longo e divertido verão. Amamos-te muito, avó querida, mais do que possas imaginar, e precisamos muito de ti ao nosso lado, todos os dias. 

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