A propósito de bipolaridades

Recentemente um deputado da maioria, por quem tenho apreço pessoal, falava de bipolaridades políticas, envolvendo no conceito as incoerências de posições partidárias. Referia-se expressamente à posição do meu partido que resiste na concretização do direito à greve em determinadas profissões ligadas às funções primordiais do Estado, mas não tinha o mesmo entendimento quando se falava de outras profissões, também importantes na satisfação de necessidades essenciais da comunidade, nomeadamente ligadas à medicina.

Independentemente da questão particular, a observação abriu-me o apetite para falar de bipolaridades políticas. Não tanto das pessoas que saltam de partidos como quem muda de camisa, mas das incoerências de posições que vão assumindo na vida. Eu sei, e é nosso dever não desmerecer esse facto, que as seguranças e certezas na vida social já não são o que eram. O ano que agora acabou demonstrou à saciedade que não há certezas e que a nossa segurança deve procurar outras referências que não as tradicionais (o Papa Francisco fala do conceito de pertença, como essencial à segurança no mundo de hoje). Se pensarmos na finança ou na segurança pública, no emprego ou na reforma, no sector público ou nas grandes actividades económicas, ou mesmo no clima e nos fenómenos a ele relacionados, perceberemos que nada hoje é seguro ou pelo menos tão seguro quanto era. E é por isso natural que essa instabilidade também se transmita nas reflexões e nas políticas que propomos para a resolução dos problemas. Nesse sentido a coerência em política não pode ser fundamentalista ao ponto de revelar cegueira quanto à realidade subjacente e incapacidade de se adaptar.

A incoerência em política só se torna bipolar quando se revela desnorteada ou desnorteadora.

Há na nossa terra política uma atitude maioritária idêntica àqueles herdeiros que durante toda a sua vida dizem mal do ascendente, mas mal ocorre o seu óbito não se esquecem da herança. Os renovados PSD da Madeira são como esses herdeiros: não gostaram do jardinismo, mas não se cansam de chamar a si os louros que esse período deixou no terreno. E é curioso verificar que nuns, o distanciamento que publicitam é puramente epidérmico e que à primeira contrariedade, ressuscitam com enorme desplante as práticas e os conceitos que antes criticavam; e noutros, a crítica pública é meramente estratégica não sincera e apenas necessária para renovar a maioria que os mantém nos píncaros da decisão. Num ou noutro caso, o comportamento bipolar salta à vista!

Estou aliás com alguma curiosidade para ver se também não existirão manifestações desse tipo de incoerência quanto ao término da prometida privatização deste JM, onde escrevo….

Mas a bipolaridade também tem outra feição.

Os últimos tempos têm revelado que os maiores defensores de mais autonomia, ou seja, de uma crescente capacidade própria para decidir o nosso futuro são os que mais acusam Lisboa de não resolver esses problemas regionais. Há de facto filhos que proclamam desejo de se autonomizar das casas dos pais mas que nunca se esquecem de mandar as contas para a responsabilidade paterna, ou, pior ainda, quando confrontados com problemas, atiram sempre para outros as responsabilidades para os resolver!

Na Madeira tem sido assim nos últimos tempos: quando não se consegue concretizar a promessa, há que lançar as culpas para o exterior ou para os outros. E em vez de se reconhecer humildemente e logo à partida que há coisas que não temos possibilidades de sozinhos conseguir resolver, vão criando moinhos de ventos e ilusões quiméricas que apenas servem para animar os Sanchos Panças cá do sítio.

Esta bipolaridade é sem dúvida mais grave porque é evasiva e própria de quem não sabe assumir e dar a cara por aquilo que vai mal. Encontra sempre um bode expiatório que lhe alimente a intocabilidade e o convencimento da perfeição, e não é capaz de se introverter e reconhecer o erro. Tenho a sensação o que por vezes as remodelações transpiram essas patologias e não são mais do que manifestações da síndrome de bipolaridade política em quem temos sido governados. JM

subir
123 utilizadores votaram.
Vote para aumentar a visibilidade do artigo