Os perigos

O homem queimou a língua – não esperou que o milho cozido, a fumegar no prato fundo, amornasse. A mulher riu-se e disse que, com esta comida, era sempre a mesma coisa. [É a época da Festa; este prato não é típico da quadra, mas é predilecto.] O homem encolheu os ombros, com a boca – e as orelhas – a arder, e provou a espada com cebolada, também a fumegar. Queimou outra vez a língua.

Concluído o almoço – acompanhado de uma garrafa de vinho, não menos –, disse o homem: “Vou ali – já venho.” Abriu o portão e saltou os degraus até à estrada. Encostou-se a uma parede – acto que nele era inusitado –, levou à boca o último cigarro do maço e passou o polegar sobre a roda de pedra do isqueiro. Olhou durante dois ou três segundos para a chama. Abrigou a pequena labareda com a mão livre e incendiou o cigarro. O fumo da primeira baforada – assim como das seguintes – saiu-lhe pelas narinas. [A pequenada da família, maravilhada, dizia-lhe que ele parecia um dragão.]

Na estrada vinha um adolescente de bicicleta. Ao passar em frente da nossa personagem principal, a cremalheira da bicicleta saltou – como uma espoleta com vida própria, e caprichosa. O homem que fumava levantou a cabeça e ficou a olhar aquele mecanismo, que pareceu ficar interrompido no ar. Quando baixou os olhos, ainda viu o corpo do adolescente ser atirado – como uma massa de braços e pernas desengonçados e emaranhados – para uns arbustos que já há muito tempo não mereciam a atenção de um jardineiro. [Tudo ficou novamente em suspenso.] Depois, quando estava pronto a ir em auxílio – com certeza que o rapaz tinha partido a púcara –, o homem viu sair o projéctil humano descuidado que a vegetação tinha recebido. O rapaz deu alguns passos; não parecia ter ficado magoado; não aconchegava ou massajava qualquer parte do corpo; veio à estrada, tomou a bicicleta; mais adiante, levantou do chão a roda dentada avariada; sentou-se no tratuário. O homem mexeu o queixo quando os olhos de ambos se cruzaram; no fundo, perguntava: “Tudo OK?” O rapaz levantou o polegar da mão direita; logo ergueu-se e escoltou, pela estrada fora, a bicicleta magoada.

Um Toyota de cor rubra aproximava-se da encruzilhada desta história. A condutora, uma jovem mulher, vinha sozinha, risonha e falastrona com o telemóvel colado ao ouvido. [A mão livre tinha de dar conta do volante e das mudanças.] Um pombo desembestado e confuso passou em voo baixo e foi de encontro ao chuvento da janela da condutora. [Por pouco o bicho não fazia companhia à jovem, no interior do carro.] Este choque obrigou a suspensão da marcha. A mulher, agora abalada, levou algum tempo a tomar sentido de si. Reiniciou a jornada apenas para voltar a travar, alguns metros adiante, com estrépito: uma adolescente que fitava o telemóvel – Pokémons? Facebook? – havia se atirado sem cuidado do passeio para o caminho. [De novo, um tempo suspenso caiu sobre esta estrada.] A condutora e a adolescente – só lhes lembrou sorrir, a primeira com nervosismo, a segunda sem isso.

Passadas estas cenas, e acabando-se o cigarro – tudo o que fica narrado passou-se durante um cigarro, sorvido com sofreguidão –, o homem resolveu voltar a casa. [Tinha a boca seca.] Atirou o cigarro ainda aceso ao chão e subiu as escadas. Não tinha reparado que na parede onde se tinha encostado estava um sinal que proibia fazer lume. Por detrás da parede estava um tanque de gás que servia o prédio onde vivia.

[Contra os perigos que nos espiam – e são muitos –, qualquer vigilância é pouca. Bom Ano.] 

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