A mecânica da supresa

A vida nunca deixou de ser surpreendente. Existia tanta surpresa no tempo em que não sabia o funcionamento das nuvens e dos motores, como existe agora em que supostamente já leio mapas, boletins meteorológicos e guias práticos.

A razão de surpresa constante talvez resida no facto de as coisas que nos surpreendem não constarem nos manuais de instrução. Ou principalmente porque as coisas que nos surpreendem não têm manual de instrução.

É com a mesma surpresa infantil que me vejo voar acima das nuvens, mesmo sabendo agora como funcionam os aviões.

É com a mesma surpresa que descubro cidades, mesmo sabendo ler os mapas. Porque não vem nos mapas a forma como as cidades se tornam nossas. E nunca é por sabermos de cor as ruas, mas sim pela forma como nos sabemos perder nelas. A forma como, a determinada altura do dia, aquela luz se reflete sobre o rio, desce a rua, sobe as árvores, enche os olhos, toca a pele. A forma como o frio de certas cidades se torna nosso conhecido, rente às mãos, e a nossa cara gelada vai ao encontro da chuva. A forma como os edifícios parecem que nos esperam como se guardassem o nosso lugar dentro deles.

É com a mesma surpresa que conheço pessoas, que as faço minhas, que ensaio o coração para a dor ou para a alegria. Não há outra forma de conhecer pessoas que não seja a da total forma indefesa como nos entregamos a elas. A da total surpresa de nos fazerem gostar delas ou de nos desiludirem completamente.

?Imagine-se, por instantes, que aprendíamos tudo até eliminarmos por completo a surpresa. Imagine-se, por breves instantes, que, a cada minuto, sabíamos de cor como funcionam os aviões, como se formam as nuvens, como se comportam as cidades, os rios, as ruas, como são as pessoas por dentro, antes de as conhecermos por fora. Poderíamos pensar que assim estaríamos mais protegidos. Mas quem, de verdade, se quer proteger assim da vida e do que ela é por inteiro?

Eu quero continuar a ir ao encontro das coisas e das pessoas e, se preciso for, também quero continuar a ir de encontro às coisas e às pessoas. Assim de coração e mãos e pés a se perderem, e de cabeça nas nuvens, e da possibilidade de perder estações de comboio, e da possibilidade de ter saudade até doerem os ossos.

Eu quero a surpresa de poder esquecer, a cada momento, o funcionamento do mundo e do coração. Quero poder ouvir a mesma música vezes sem conta, o mesmo filme até decorar algumas deixas e esquecer outras, o mesmo livro até o conhecer como as ruas de uma cidade e, ainda assim, perder-me em linhas que pensava que, afinal, não estavam lá.

Quero manter esta memória que me engana, que sabe esquecer, que sabe perder-se e aprender de novo.

Quero continuar a voar acima das nuvens como se não soubesse, ainda e sempre, como funcionam os aviões. E ouvir a mesma música durante todo o caminho, a aprender a letra até a esquecer e só aí será completamente minha.

Na verdade, não sei ainda como funcionam tantas coisas, não sei principalmente a forma como funcionam o meu coração e a minha cabeça, as minhas mãos a conhecerem cidades pelo toque, os meus pés a desenharem mapas sem sentido, a minha surpresa inicial das coisas que conheço.

Voo ainda sobre as nuvens porque sei ignorar por completo o funcionamento dos pássaros metálicos, da mesma forma que desconheço o funcionamento dos pássaros reais que voam contra o vento, o sol, a chuva. Todos os voos se fazem, afinal, de uma ignorância surpreendente. JM

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