Há tanta gente assim!

Por Octaviano Correia

 

Um amigo, daqueles amigos chamados “amigos da onça”, neste caso particular não da onça, mas da cobra, comparou Luanda a uma cobra. Exatamente. Não sei de que espécie, se dala, surucucu ou gibóia, se daquelas que matam em segundos se daquelas que antes de devorar a presa apertam, apertam, apertam. Fosse qual fosse a dita, leia-se cobra, fiquei a pensar de mim para comigo, que na verdade ninguém pensa de si para outros, porque teria ele, o tal amigo, (da onça ou da cobra) comparado uma cidade a um ofídio rastejante que, dizem os livros, são animais inteiramente sem membros, sem cinturas peitoral e pélvica, providas de numerosas vértebras que lhes permitem ondulações laterais rápidas através das ervas e de terrenos irregulares?

Francamente Luanda não me parece nada disso. Mas continuei, que o raio da cobra não me saía da cabeça, salvo seja, a pensar. Seria uma dala? Verde e mais do que venenosa, de pouco mais de 10 centímetros? Não. Não encaixa.

Surucucu? A surucucu pertence à família das víboras e é uma das cobras mais venenosas de África e pode atingir até um metro e meio de comprimento. A sua mordida é mortal. Ela é responsável pela morte de muitos africanos que acidentalmente a pisam sem a ver e que acabam por ser mordidos por ela. Não. Luanda não é assim. Não. Luanda não morde à socapa.

Gibóia. Gibóia? Afinal como é a gibóia?

A gibóia é uma serpente, não, uma cobra, gosto mais de cobra, é mais popular, de grande tamanho, mas não venenosa. É um animal muito dócil e não venenoso, apesar de gozar da fama de ser um animal perigoso. Aqui já se começa a parecer com Luanda. Salvaguardando o “dócil, vamos lá!!!! As giboias matam, envolvendo num abraço, o corpo da presa e sufocando-a. Não. Luanda sufoca mas nem sempre mata. Às vezes desmoraliza bué. Mas continuando. A digestão da gibóia é muito lenta e por isso fica imobilizada em estado de verdadeiro torpor, por mais de uma semana. Daí o termo bem angolano ”giboiar”. Aqui sim, parece-se com Luanda quando o calor chega aos quase 40. Mas só por isso!

Periodicamente as cobras mudam de pele. Não. Também não. Luanda não muda de pele. Jamais. Transforma-a, isso sim. Adapta-a. Molda-a. Amolda-a. Ajusta-a. Também não é por aí que o meu amigo tem razão.

E concluí, depois de pensar bué, de sonhar bué com cobras e outros répteis afins, até com jacarés tive pesadelos. Mas concluí. Afinal Luanda não é uma cobra. Aperta mas não mata. Sufoca mas não asfixia. Pode ser pegajosa. E o quanto!!! Que o digam os luandenses em Março às duas da tarde. Pode precisar de giboiar depois de uma boa muamba bem picante com funge, uma papa de farinha de mandioca que enche que chega, regada com umas cervejas, leia-se “cucas”, estupidamente geladas, mas Luanda não tem nada a ver com cobras. Luanda não é traiçoeira. É dura. Impetuosa. Descontrolada. Agressiva. Brutal. Feroz, às vezes, mas frontal. Genuína. Autêntica. Olhos nos olhos.

Luanda uma cobra, já se viu?!

Definitivamente. O meu amigo nunca deve ter estado, nunca esteve, tenho a certeza, em Luanda. Ele deve ter ouvido “coisas” e pronto, lá inventou, deduziu, concluiu, forjou, caluniou, injuriou.

Há tanta gente assim! JM

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