A fábrica de...algas!

A 1 de Janeiro de 1986, Portugal e Espanha integravam a Comunidade Económica Europeia, dando “um importante passo na história europeia”, como afirmou o Presidente do Parlamento Europeu, na cerimónia que assinalava o 30.º aniversário da assinatura do Tratado de Adesão.

É inegável que este passo foi extremamente importante no nosso percurso enquanto país e, mais especificamente, enquanto Região Autónoma. No passado dia 06 de janeiro de 2017, o Gabinete do Parlamento Europeu (PE) em Portugal, em colaboração com o Centro Europe Direct Madeira, promoveram um profícuo e oportuno fórum de discussão regional onde foi possível discutir o papel inegável do projeto europeu no desenvolvimento regional.

Contudo, foi igualmente incontornável a assunção da má gestão destes financiamentos numa região onde, durante décadas, houve uma completa inversão de prioridades e uma incoerente utilização de fundos estruturais sem fundamentações e sem enquadramentos específicos que permitissem um correto desenvolvimento económico e social.

E o certo é que, com fundos estruturais ou na ausência deles, o ímpeto gastador dos sucessivos governos regionais era insaciável. Num completo desrespeito pela ética política e pelo rigor na gestão dos dinheiros públicos, a fórmula resumia-se ao mesmo: “Não se preocupem com a dívida, que alguém há-de pagar”.

Houveram golpes teatrais entre delfins, promessas foram feitas e uma “renovação” foi eleita. A fasquia estava alta… Mas a montanha pariu um rato.

Foi o caso (entre marinas, jornais e afins) do famoso biocombustível criado a partir de algas marinhas no Porto Santo. Esse projeto que iria permitir a redução de 17 mil toneladas de fuel, diminuindo a dependência do exterior, a redução em 50 mil toneladas de emissões de CO2 e assim tornar o Porto Santo numa montra de referência em termos ambientais e de tecnologia. Uma infraestrutura megalómana (que um conhecido deputado do PSD “carinhosamente” apelidou de “fábrica do caldo verde”) desprovida de planos estratégicos e de rentabilidade económica e que, segundo o atual executivo de Miguel Albuquerque, já fez sair dos cofres da Empresa de Eletricidade da Madeira cerca de 30 milhões de euros.

Oito anos depois das primeiras declarações, vimos a descobrir que afinal o biocombustível é inviável e que, afinal, o Governo Regional ainda estuda a hipótese de se aventurar na produção alimentar e cosmética (!). Tudo sem garantias, apenas mais uma aventura milionária num projeto desgovernado.

Numa Região onde existem claras carências ao nível da saúde e da educação, onde a taxa de desemprego é astronómica, onde temos taxas absurdas de emigração forçada, com uma economia que não consegue gerar receitas significativas, este Governo Regional aplica milhões em sabonetes e cosmética, remetendo para segundo plano promessas de uma ligação marítima por ferry, uma ligação aérea através de um avião cargueiro, ou estruturas essenciais como o novo hospital da Madeira, e mantendo o olhar e a mão estendida para Lisboa. Para que sejam os outros a resolver o que este Governo não sabe resolver. Para que sejam os outros a pagar o que este Governo promete pagar.

Passaram-se, sensivelmente, dois anos desde a tomada de posse de Miguel Albuquerque. O tempo passa, as coisas mudam, as máscaras caem... e, como todos sabemos, o tempo não volta para trás. JM

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