De um milagre...

Lembra-se do Martinho, o pai-Natal que animava a cidade pelos dias da festa? Chamei-lhe Peter Pan, da outra vez que escrevi sobre ele, por causa desta coisa de viver as festas como se fosse um menino. Pois bem: este ano, ninguém o viu nos lugares do costume, ninguém espreitou o que trazia dentro do saco, ninguém provou as broas e o licor que distribuía pela cidade.

Teve um acidente, o pai-Natal. Grave. Tem estado no hospital, a aprender a viver como quem teve a morte à porta, a aprender a andar, a aprender a agradecer cada dia, cada progresso feito, cada degrau conquistado.

O Martinho é um milagre do Natal. Percebe-se isso, depois de o ver na cama ou na cadeira de rodas e de o ouvir dizer, “Sou muito feliz!”, mesmo sabendo que , este ano, não poderia ir às missas do parto ou entrar nas repartições, semeando ho-ho-hos!, como quem oferece rebuçados.

Todos os dias, agradece: a Deus, à família, aos amigos, aos párocos de S. Martinho e da Nazaré que nunca o largaram, ao pessoal dos hospitais que têm cuidado dele, a quem aparece (“tem vindo tanta gente!”), a quem rezou para que voltasse a andar, para que voltasse a sonhar com o que há de ser.

Há milagres, portanto: o da capacidade da alegria, depois da dor, depois do medo, depois da angústia de um “nunca mais” segredado nas noites piores. O Martinho acreditou. E lutou. E teve a esperança dos meninos.

Foi então que percebi: este pai-Natal, este ano, não veio à cidade, porque era preciso noutro lugar. E quem esteve no Hospital Dr. João de Almada, no tempo da festa, sabe exatamente do que é que eu estou falando. Este foi um Natal especial. E o Martinho não se cansa de agradecer a quem lhe ofereceu a felicidade de ter tudo exatamente como tinha sonhado, antes de.

Os reis de hoje hão de levar este presente ao presépio do Menino Jesus: este ano, junto com o incenso , com o ouro e com a mirra, vai o sorriso de um homem que não se deixou morrer.

Afinal, a festa não acaba hoje. Porque há Martinhos que se vestem de Pai Natal, quando é preciso, para mostrar que a luz acontece, mesmo quando tudo parece acabar.

Ao meu amigo pai-Natal, muito obrigada. Porque me deu uma lição para o Ano Novo. 

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