Chapéus alheios e unhas de gel

No verão de 1944, George Orwell escreveu sobre a “Propaganda e discurso popular”, cujos pensamentos e reflexões continuam atuais, como por exemplo a distância que separa os partidos políticos e os seus protagonistas do homem comum. Apesar do avanço do populismo, o certo é que ainda encontramos agentes políticos que teimam em olhar de cima para o eleitorado. Muitos são exímios nas competências técnicas, mas falta-lhes o essencial: falar a mesma linguagem que o comum dos mortais. Para isso, há que fazer parte desse todo, sentir as massas, viver a dor dos outros, respirar os seus sonhos e entender aquela fé que move homens e mulheres que todos os dias lutam por uma vida melhor nesta época de tempos sombrios.

Num país que continua a cultivar a herança das mordomias escandalosas da monarquia para os detentores de cargos políticos, continuamos a assistir, quase que impávidos (ou desiludidos?), ao sistemático quebrar de promessas e de desculpas esfarrapadas de quem ousa olhar para os eleitores e para as suas necessidades como fórmulas de uma folha de excel. O lucro do cidadão e da obra que o mesmo reclama não pode ser o mote de uma governação. Se assim fosse, muitas freguesias não tinham água potável ou estradas…

“Sou eu que pago os políticos!” A frase é de Joakim Holm, um cidadão sueco, corroborada por outro testemunho: “Os políticos são eleitos para trabalhar para mim e para todos os outros cidadãos que pagam impostos. Aqui ninguém acha que os políticos são uma classe superior com direito a privilégios”. Posturas de eleitores comuns que podem ser lidas no livro de Claudia Wallim, “Um país sem excelências e mordomias”.

Há dias, ouvi alguém dizer que a questão do ferry para a Madeira era um simples fait divers. Pus-me a pensar na ligeireza com que se atribui graus de importância a determinados assuntos. O ferry não é um assunto inferior, principalmente numa ilha que está refém das viagens aéreas que atingem preços insustentáveis. O ferry significa alternativa, outras possibilidades para os ilhéus saírem da “casca” e verem o mundo tal como ele é. Aliás, orgulhosamente elogiamos os madeirenses que se destacaram à escala internacional. Muitos se esquecem que esses ilustres tiveram de sair da Madeira para conquistar o mundo!

Também é importante não esquecer que o ferry fez parte de um rol de promessas eleitorais. Seria ouro sobre azul se existisse uma fórmula para contabilizar os votos que essa promessa arrecadou.

O avião cargueiro, o novo hospital, o subsídio de mobilidade, o dossier JM são outros assuntos que vão continuar a marcar este novo ano e para os quais são exigidas respostas que não se coadunam com o sacudir a água do capote ou, para os mais radicais, com o lavar das mãos de Pilatos. Não basta atirar culpas para inimigos externos, quando os mesmos nem estiveram metidos na embrulhada das promessas. Dizer que assuntos, como o subsídio de mobilidade, têm sido alvo de incompreensão coletiva é de uma prepotência atroz. Voltamos a George Orwell e à distância…

Informar com clareza, falar a mesma linguagem, ter o respeito de envolver o cidadão nas decisões, trabalhar sem estar preso a luxos ou truques de maquilhagem, em prol de uma sociedade mais aberta e transparente. São necessários educadores que percebam que servir o cidadão não se coaduna com comportamentos de soberba e vaidade. Nesta sociedade que tem a ânsia de subir os degraus da modernidade a todos os níveis, não se pode, nem se admite que se cumprimente com chapéus alheios. Esta viola não pode ser tocada com unhas de gel. 

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