Ano Novo. Bom Ano?

É tradicional expressar votos de Bom Ano Novo aos familiares e amigos. Não fugirei à tradição. Mas amplio os votos para todas as famílias e todos os cidadãos. Sinceramente. Não vejo razão para deixar de desejar a todos dias felizes, boa saúde, realização profissional e pessoal. A todos, portanto, um Bom Ano.

Serei menos convicto a antecipar um bom ano para a Humanidade.

Sou optimista por natureza. Vivi um período da civilização ocidental de prosperidade. Nasci no pós-guerra (2ª guerra mundial). Conheci os anos de ouro das sociedades industrializadas dos Anos 50 aos Anos 70 do século XX. Passei pelos percalços das primeiras crises do petróleo no início dos Anos 70. Pelo agudizar dos problemas no Médio Oriente, em parte também decorrentes das novas geografias do petróleo (na verdade, os problemas têm raízes mais estruturais e permanentes). Assisti aos tempos dos equilíbrios incríveis da Guerra Fria e da ameaça nuclear. Aprendi que era possível um ‘equilíbrio no fio da navalha’… sólido ou, pelo menos, mutuamente dissuasor. Passei, como estudante os tempos excitantes da primavera marcelista’ e da tentativa de transição do regime salazarista. Depois, os tempos da Revolução Democrática de Abril e das portas abertas da esperança ilimitada. Tive a sorte e o privilégio de exercer, sempre, a minha profissão num contexto de ascensão. Existiam problemas no país e no mundo mas a Humanidade parecia capaz de os ir resolvendo sempre. Em progresso.

Hoje tudo está mudado.

Quando se pensava que a queda do muro de Berlim e do império soviético abriria ao mundo um tempo novo de ‘fim da história’, em que venciam em definitivo as democracias liberais e o bem-estar, assistimos, pelo contrário, a tempos de incerteza, de instabilidade e de afirmação do Mal.

Em Portugal, para lá das evoluções políticas mais ou menos interessantes nada de relevante acontece para mudar estruturalmente o país. As debilidades de Portugal permanecem há anos. O país não cresce praticamente desde 2000… ou seja há quase duas décadas. O país permanece vulnerável à globalização, à concorrência internacional de baixos preços de produtos vindos do leste e da Ásia. O país não apresenta argumentos sólidos para aproveitar a pertença a uma moeda forte e estável. Em 2017, permaneceremos, pois, na corda bamba; ou seja, dependentes da intervenção do Banco Central Europeu, dos mercados financeiros que nos financiam, dos humores das agências de rating, das opiniões de instituições internacionais como o FMI, a OCDE e outros.

Lamento não poder dar boas notícias aos meus concidadãos. A menos que a conjuntura internacional nos surpreenda com uma evolução positiva ou, pelo menos, menos negativa do que antecipo. Enquanto tudo correr sem problemas generalizados (incluindo guerras) haverá sempre o turismo para alimentar minimamente portugueses do Continente e da Madeira (dos Açores também).

Porém, no âmbito internacional os factores de risco são enormes. São conhecidos de todos os principais focos de instabilidade, em 2017: o novo presidente dos EUA, Trump; os riscos das eleições em França e na Alemanha, com a afirmação de forças populistas, chauvinistas, nacionalistas; a evolução negativa provável da situação política e, por arrasto, financeira da Itália; as dificuldades em manter a coesão da UE, senão mesmo em manter o projecto europeu (cisão no horizonte?); os desenvolvimentos políticos na Hungria, na Polónia e, surpreendentemente, na Escandinávia, sempre com uma dominante populista e soberanista; a situação altamente preocupante no Médio Oriente e na Euro-Ásia (da Ucrânia à Turquia e ao Cáucaso).

É difícil ser optimista perante este quadro. Mas não é de excluir que a evolução seja menos negativa e que não se assista à conjugação simultânea de todos ou grande parte dos factores de risco.

Neste contexto campanhas para a saída do Euro, como alguns querem iniciar em Portugal é tudo o que menos precisamos em 2017. Que Deus nos proteja! 

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