Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís 2016 anula distinção a Carla Pais

O júri do Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís, presidido por Guilherme d‘Oliveira Martins, deliberou, por unanimidade, “anular a decisão anterior", não atribuindo o prémio a Carla Pais, “por ter sido violado o regulamento do galardão”.
O júri deliberou, em reunião, “anular a decisão anterior, não atribuindo o prémio nesta 9.ª edição, uma vez que a autora publicara já, numa editora portuguesa, uma obra de teor romanesco”, lê-se na ata, à qual a agência Lusa teve acesso.
O prémio distingue uma primeira obra, não devendo o autor, segundo o regulamento, ter publicado anteriormente qualquer obra romanesca.
Fonte do júri afirmou à agência Lusa que se “verificou, entretanto, que a candidatura viola o artigo 1.º do Regulamento do Prémio, que estabelece que este Prémio, instituído pela Estoril Sol em homenagem à grande escritora, ‘destina-se a distinguir, anualmente, um romance inédito de autor português sem qualquer obra publicada no género’”.
Na ata lê-se que o júri distinguiu, “em tempo próprio, a obra ‘Mea Culpa’, apresentada sob pseudónimo por Carla Pais, no pressuposto da sua conformidade com as normas do concurso”.
Segundo o 'site' da Câmara de Leiria, Carla Pais, natural de Regueira de Pontes, no concelho de Leiria, apresentou, há cinco anos, o romance "Renascer", na Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira, naquela cidade. Segundo a mesma fonte, “este é o terceiro livro que a escritora publica, no espaço de dois anos”, e adiantava que “o quarto romance” estava “a ser escrito ‘online’” em www.decarlapais.wordpress.com.
Além de Guilherme d‘Oliveira Martins, o júri do prémio foi constituído por José Manuel Mendes, pela Associação Portuguesa de Escritores, Maria Carlos Loureiro, pela Direção-Geral do Livro e das Bibliotecas, Manuel Frias Martins, pela Associação Portuguesa dos Críticos Literários, e, ainda, Maria Alzira Seixo e Liberto Cruz, convidados a título individual, e Nuno Lima de Carvalho e Dinis de Abreu, em representação da Estoril Sol.
O prémio, no valor pecuniário de 10.000 euros, é uma parceria da Estoril Sol com a Editorial Gradiva, que publica o título vencedor.
Sobre “Mea Culpa”, o júri tinha considerado tratar-se de “um romance que transporta o leitor para um duro patamar de existência humana e social. Miséria e decadência sob formas violentas, que vão do incesto a diversos modos de servidão, [que] circunscrevem relações humanas envenenadas por injustiças e desesperos”.
Realçaram os jurados em ata que “a linguagem do romance é ela própria atraentemente crua e distanciada, embora sem nunca perder o sentido da sua orientação literária, quer na riqueza vocabular e imagística, quer no alcance da construção narrativa, quer ainda no modo como a memória da poesia acaba por ocupar uma espécie de espaço de luz em vidas dela afastadas”.
Segundo se lê na ata então exarada, “Mea Culpa” é “um romance feito de muitas dores humanas, mas também de esperança”.
Carla Pais, que vive em Paris, onde trabalha num Centro de Formação à Distância, quando soube da vitória, afirmou-se “surpreendida” com a distinção.
“Nunca me passou pela cabeça arrecadar o galardão. Ainda assim precisava de tentar; saber se aquilo que escrevera podia ser apreciado por um júri. Foi por isso que concorri ao Prémio Agustina Bessa-Luís”, disse.
“A partir de uma determinada altura, escrever tornou-se tão necessário como ler. Em 2013 ou 2014, confiando na recomendação de um crítico literário que muito aprecio, descobri a escritora Herta Müller, a sua prosa tão poética e tão crua em simultâneo, e resolvi fabricar o conto ‘A alma do Diabo’, com que concorri e ganhei o Prémio Literário Horácio Bento Gouveia, no ano passado, na Madeira”, disse na ocasião a autora.
Em 2015 tinha já arrecadado o 3.º lugar do Prémio Poesia Agostinho Gomes, com o poema “Assimetria dos lábios”.
A autora decidiu então, escrever um romance: “Um bom romance, um romance com a qualidade que exijo dos escritores que admiro”, disse.
“Quis provar a mim mesma que seria capaz de escrever um romance. Foi daí que nasceu ‘Mea Culpa’. Dessa exigência. Dessa vontade de conseguir”.

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