A morte dos grandes…

Com ele refinei o meu gosto pelo pensamento e pelas grandes questões que movem o ser humano neste mundo a que chamou de líquido. Ensinou-me a observar melhor e a desenvolver um sentido mais crítico. Com Baumam aprendi a congelar o impulso consumista e imediato que se alastra como uma gangrena e comecei a dar valor a coisas que, hoje em dia e aos olhos de muitos, parecem desfasadas da realidade.

Ainda escreves cartas?

Precisas mesmo de um cartão de crédito? Ou de comprar o último modelo de telemóvel que vai fazer com que os teus colegas se mortifiquem de inveja?

Consegues sair da tua fortaleza interior e dar o teu melhor sorriso a quem se cruza contigo?

“O mundo transforma-se num poço de objetos potencialmente interessantes e a empreitada é espremer deles tanto interesse quanto possam render”.

Será que já não sentimos tanto?

Observamos os outros como objetos que podemos utilizar, ou descartar, consoante as necessidades imediatas. Olhar para o próximo e tentar perceber de que forma nos poderá ser útil passou a ser o click que nos desperta perante a existência daquele ser humano.

Quantas vezes fomos abordados pelo interesse cru de outrem para servirmos os seus intentos? E qual repasto dos nobres, depois de cumprimos com essa tarefa fomos descartados num abrir e fechar de olhos?

Estaremos a perder qualidades e a passar para meros “caçadores de interesses”, exímios nas artes da manipulação?

A sociedade divide-se entre ricos e pobres, onde aumenta de forma desmesurada o fosso entre manipuladores e manipulados. Para Zygmunt Bauman, na política, “os triunfos de hoje significam isolar a bagunça deixada pelos atos comemorados ontem”. O imediatismo das futilidades serve para apagar a memória das inconveniências do passado e fazer com que o cidadão continue a se deixar embalar pelo canto das sereias.

Um governo que não educa está condenado ao fracasso. Classes dirigentes que evitam a crítica, o confronto de ideias, o debate sério e construtivo estão sentenciadas a afogar-se na própria soberba, marcadas pela inércia e pela incompetência.

São necessárias mais pessoas capazes de colocar de lado a mesquinhez da condição humana. É imperativo começar a mastigar tudo aquilo que nos querem fazer engolir enquanto cidadãos consumidores das informações oficiais e de propaganda.

?É preciso ouvir cada vez mais os cidadãos e perceber o pulsar destas gentes.

“Populistas, na política, são sempre os outros, os adversários. Na verdade, qualquer bom partido deveria ser “populista” – ou seja, escutar o que pensam e o que pedem as pessoas comuns, os cidadãos. No entanto, no debate político, a palavra é usada em sentido pejorativo. Não me preocupa a suposta ameaça do “populismo”, mas a possível resposta autoritária à crise da democracia”. Assim falou um grande homem que dedicou toda a sua vida a estudar o comportamento humano. O ilustre pensador Zygmunt Baumam, que teve a oportunidade de visitar a Madeira, faz parte do rol dos grandes homens que morreram, mas que deixaram uma vastíssima obra que continuará a despertar consciências ávidas por mudanças e atentas aos sinais de perigo. 

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