Adeus Mário Soares

As minhas memórias políticas mais antigas são as das eleições presidenciais de 1986. Depois de na primeira volta Freitas do Amaral ter conseguido 46%, Soares 25% e Salgado Zenha 21%, na segunda volta e à custa de sais de frutos, a esquerda elege Mário Soares para presidente com 50,71%.

Tinha então 11 anos e acompanhei essa eleição presidencial como um adepto acompanha um campeonato de futebol. Por imperativo da idade, não conheci o Mário Soares antes do 25 de Abril, nem o do exílio, nem o da fundação do Partido Socialista, nem o da Fonte Luminosa, nem o tempo de Primeiro-Ministro.

Conheci o Mário Soares Presidente (1986-1996) e gostei do político simpático que fazia Presidências Abertas pelo país. Gostei do político que quebrava as regras para ser ele próprio, mesmo quando isso lhe custava popularidade, como quando montou uma tartaruga nas Seychelles.

Conheci o Mário Soares deputado europeu (1999-2004), defensor de um projeto europeu ambicioso, quando todos já o julgavam destinado à prateleira senatorial.

Conheci melhor o recandidato a Presidente de 2006, então com 81 anos, onde fui mandatário financeiro regional da sua candidatura. Opondo-se a Cavaco, um candidato que todos consideravam um vencedor antecipado. Soares esteve presente e lutou. Mas tal como já tinha acontecido no passado, teve de lutar dentro do próprio partido. Desta vez não correu de feição e não só Manuel Alegre ficou à frente, como Cavaco ganhou na primeira volta.

Mas conheci sobretudo o senador inconformado que, apesar da idade fazer pensar que já não estaria na política ativa, usava a caneta para agitar as águas, num tempo político onde outros apenas aguardavam para que o vento estivesse de feição.

Mário Soares tinha opinião própria e dizia o que pensava. Não era por isso apenas uma sumula do que a cada momento era considerado o politicamente correto. Soares era um político com opiniões para transmitir e era por isso um prazer ser surpreendido com o que a cada momento ele queria dizer. Gosto de políticos que acrescentam, não se limitando a repetir por palavras próprias o que já estava claro e estabelecido pelo respetivo partido.

Neste momento de despedida queria manifestar publicamente o respeito pela figura histórica, pelo político e pelo homem. Mário Soares, obrigado por tudo o que proporcionaste ao nosso país. 

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