25 Abril: Nacionalizações foram reação contra controlo operário - historiadora

A historiadora Raquel Varela propõe no livro “História do Povo na Revolução Portuguesa 1974/75” que o processo de nacionalizações foi a resposta dos partidos políticos contra o “controlo operário” das empresas.
“Os partidos tentaram dirigir este processo. Os da esquerda, os da direita, a Igreja, os governos, o Movimento das Forças Armadas (MFA). Todos tentaram dirigir este processo” mas “foram ultrapassados” pelos acontecimentos, afirmou a historiadora, que publicou uma nova investigação sobre poder dos trabalhadores durante os anos 1974 e 1975 em Portugal.
A autora, em declarações à Lusa, recordou que “era frequente as pessoas ocuparem uma fábrica ou um bairro e a seguir ia lá o MFA que tentava evitar que a ocupação fosse mais longe e normalmente legitimando a ocupação que se tinha dado".
O livro inclui, além de fotografias inéditas da Agência Magnum, várias tabelas e quadros com números de greves, manifestações, ocupações de casas e fábricas, unidades em autogestão, cooperativas, saneamentos e a evolução salarial, entre outros dados.
Para a investigadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, “o 11 de Março de 1975 é uma resposta efetiva ao controlo operário”.
De acordo com a investigação, as comissões de trabalhadores exerciam um controlo permanente sobre as administrações e estas não conseguiam governar as empresas e extrair mais-valias porque os trabalhadores controlavam as tabelas salariais, definindo um salário igual para trabalho igual.
“Em muitos casos, os patrões propõem a autogestão, sobretudo nas empresas mais pequenas, mas também em muitas empresas de maior dimensão, os trabalhadores respondem que não querem autogestão: querem que o patrão faça a gestão porque eles estão ali para controlar e para dar cabo do sistema capitalista e não para gerir o sistema capitalista”, disse Raquel Varela.
Para a autora da investigação, as nacionalizações representavam dois movimentos: por um lado, visavam retirar o controlo operário das empresas e, por outro, colocar as empresas e a banca sob controlo mais próximo do Estado, que assim assegurava liquidez e crédito.
“O PCP era muito a favor do controlo do Estado e da ligação dos trabalhadores pela Intersindical (sindicatos)”, enquanto o “PS defendia a autogestão, a ideia de que não se mudava o sistema capitalista mas os trabalhadores passavam a ter uma palavra a dizer no seu local de trabalho”.
Raquel Varela afirma mesmo que são os sindicatos a defenderem a nacionalização da banca para afastar o poder dos trabalhadores passando o setor para a proteção estatal.
“Digamos que a burguesia teve de abdicar dos anéis para conservar os dedos. Permitiu que a banca estivesse durante 10, 15 anos na mão do Estado para que não tivesse ido para a mão dos trabalhadores que iam ter controlo absoluto sobre os capitais”, afirma Varela.
Seja como for, o contexto histórico em 1975 é determinado pelo poder paralelo das comissões de trabalhadores, apesar das nacionalizações e das tentativas dos partidos em controlarem as tentativas de democracia representativa que se verificavam por todo o país.
"História do Povo na Revolução Portuguesa 1974-75" (535 páginas) foi lançado em março pela Bertrand Editora.

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